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olharevora

Um olhar crítico/construtivo sobre a cidade de Évora

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Um olhar crítico/construtivo sobre a cidade de Évora

À deriva | Eduardo Luciano | Diário do Sul, 10/2/2011‏

10.02.11 | barak

Évora e Cultura são, para muitos, nome e apelido da Cidade que habitamos. Durante muitos anos a imagem deste território como um espaço de liberdade criadora e de oferta de bens culturais de qualidade foi fazendo o seu caminho, atraindo criadores, produtores e programadores.

O prestígio granjeado deve-se à intervenção de um poder local que soube compreender a importância da cultura para a vida das populações, apostando fortemente numa política coerente e muitas vezes pioneira na forma e no conteúdo, mas deve-se também ao empenho e capacidade dos agentes associativos locais (profissionais e amadores) que são, sem dúvida, os principais actores da construção da ideia de um território como espaço onde a cultura seja uma das principais molas impulsionadoras do seu desenvolvimento.

Nos últimos nove anos temos assistido a um claro declínio do empenho do poder local nesta área essencial para a vida do nosso concelho, não se descortinando uma clara visão estratégica para uma política cultural do município, apostando-se na resposta avulsa às exigências sazonais em função das disponibilidades de tesouraria ou do calendário eleitoral.

Como se tal não bastasse, a câmara PS optou por apagar do mapa das iniciativas culturais quase todos os projectos emblemáticos da cidade e apostou em negócios particularmente ruinosos, como a recuperação da Praça de Touros, que continua a ser hoje um sorvedouro de dinheiro público sem uma programação regular que justifique o investimento realizado em propriedade privada.

As relações com os agentes culturais da cidade têm vindo a deteriorar-se, quer pela ausência de diálogo quer pela existência de diálogo inconsequente.

Para isso muito tem contribuído a atitude do Presidente da Câmara que ora considera os agentes como peças importantes da cultura no concelho, ora os trata como pedintes ou “subsídio dependentes”, um dia são parceiros, outro dia são meros fornecedores de serviços que o município compra quando pode.

Chegamos a 2011 com uma situação insustentável. Não há política cultural para o município, não são cumpridos os compromissos assumidos com os agentes culturais e o movimento associativo em geral, continuando em dívida os apoios de 2009, tendo a vereadora do pelouro afirmado que não assumia nenhum compromisso relativo a 2010.

Apesar do esforço do movimento associativo e dos agentes culturais locais que, sem os apoios comprometidos, continuaram a fazer o seu trabalho, o concelho empobrece aos olhos de quem cá vive e perde capacidade de atracção de visitantes e novos habitantes.

Apesar das inegáveis dificuldades financeiras e das diversas crises, era possível fazer diferente, com o envolvimento de quem trabalha para a cultura na cidade.

Não cremos que a atitude desistente e resignada, que é a imagem de marca desta gestão autárquica, possa conduzir a alguma saída.

Têm razão os que afirmam que, a continuar a trilhar este caminho, Évora como cidade de cultura tem os dias contados.

 

Eduardo Luciano