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olharevora

Um olhar crítico/construtivo sobre a cidade de Évora

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Um olhar crítico/construtivo sobre a cidade de Évora

A CRISE NÃO PODE SER MANTA PARA COBRIR TUDO

16.12.10 | barak

É preciso inverter este estado de coisas

 

João Bilou

Presidente da SOIR Joaquim António D’Aguiar

 

 No passado dia 8 comemoraram-se 110 anos da data em que, um grupo de jovens operários músicos fundaram, num quarto de um deles na Freiria de Cima, a Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António D’Aguiar.

 Nessa altura, e a partir das últimas décadas do século dezanove, a maioria do povo português vivia com grandes dificuldades. Os operários, os agricultores, os trabalhadores rurais e os outros trabalhadores da cidade e do campo, estavam cada vez mais pobres, e os ricos cada vez mais ricos.

 A situação provocava grande agitação e mal-estar. Os sucessivos governos da monarquia liberal, mostravam-se incapazes de melhorar as condições de vida da população e, para garantir os privilégios dos poderosos, abrasavam o povo com impostos.

O descontentamento da população era naturalmente grande!

 

 Em resposta a este amargo estado de coisas, na madrugada de 4 de Outubro de 1910, iniciou-se em Lisboa, a partir de pequenos grupos de conspiradores - membros do exército e da marinha, oficiais e sargentos, alguns dirigentes civis e grande número de populares armados - a Revolução Republicana de 1910, a primeira grande revolução portuguesa do século XX.

Com a implantação da Republica, associações de cultura como a Joaquim António d’Aguiar, e outras associações desportivas e de solidariedade social, foram então fundadas e passaram, com a sua actividade meritória, a servir Évora e a Região.

Com o regime repressivo do chamado estado novo, uma vez mais, o povo português enfrenta a crise e o agravamento das suas condições de vida a favor do enriquecimento dos mais ricos.

Ao mesmo tempo o regime enceta um processo de domesticação das associações populares de cultura e desporto, promovendo a folclorização da sua actividade e levando à extinção muitas associações socioculturais.  

O concelho e a região ficavam assim ainda mais pobres!

 

Com a madrugada libertadora do 25 de Abril de 1974, de novo o povo se levanta em armas para repor a liberdade e a esperança de melhores condições de vida para a população. E de novo, à semelhança com o período da 1.ª Republica, a população cria associações populares de cultura e desporto, de moradores, de solidariedade social, cooperativas de habitação, de produção e consumo. Uma vez mais o povo organiza-se em torno da defesa dos seus direitos e contra a crise que, em detrimento dos seus direitos de cidadania, durante cerca de cinquenta anos, lhe tinha sido imposta.

 

Dezembro é um mês pródigo em aniversários de associações de cultura e desporto na cidade de Évora. Gostaria de referir a acção de duas associações que comemoraram recentemente os seus aniversários, nos quais participei: o grupo Desportivo Diana e a Associação Cultural do Imaginário, duas associações que desenvolvem uma importante actividade desportiva e cultural. Em ambas assistimos ao importante papel que exercem junto da população e, em particular, dos jovens. Assistimos igualmente ao reconhecimento de jovens atletas que, apesar de treinarem sem condições, obtiveram óptimos resultados em competição, ou ainda jovens músicos que, apesar de todas as dificuldades com que o Imaginário se debate, são músicos exímios que desenvolvem um trabalho relevante.

Num momento em que enfrentamos uma outra crise, e mais uma vez as classes trabalhadoras e empreendedoras são sacrificadas em benefício dos mais poderosos, de novo o movimento associativo se confronta com a acção daqueles que demagogicamente dizem reconhecer a sua importância mas que, a pretexto de que as associações devem procurar outras fontes de financiamento, as empurram para o definhamento.

A crise não pode ser manta para cobrir tudo!

 

  A oferta cultural no nosso concelho volta de novo a estar em causa dado que as associações contribuem para a sua quantidade e qualidade, de uma forma determinante. 

 

 Os poderes públicos apregoando, alto e em bom som, que o que conta é a produtividade e o lucro, esquecem que o investimento feito na acção sócio cultural e desportiva das associações, é altamente lucrativo, reduzindo o risco de comportamentos desviantes, reduz o investimento muito mais elevado que será depois necessário fazer pela reinserção social e no combate à toxicodependência.

 

É preciso inverter este estado de coisas! O movimento associativo tem que demonstrar aos poderes públicos que não se deixa instrumentalizar nem precisa de esmolas, mas sim de apoio para a actividade que, ao longo dos tempos, ano após ano, vem desenvolvendo pelo progresso e qualidade de vida da população do Concelho e da Região. Esse apoio, de acordo com a Constituição da República, é um direito!