Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

A CULTURA ESTÁ VIVA E MANIFESTA-SE NA RUA! | Pedro Pinto | Registo, 7/7/2011

Aqui Eu, Pedro Pinto, cidadão, munícipe, artista e membro anónimo de um público interessado, sinto-me incomodado com alguns aspectos que envolvem a questão da "cultura" na cidade de Évora. Não me ponho contra alguém em específico e ninguém em particular. Não me incomoda que haja grupos de pessoas que decidam fazer associações por qualquer razão – eu próprio me sinto mais confortável em grupo e rodeado de pessoas activas e interventivas, subversivas, até – desde que produzam conteúdos com significado e que tragam mais cores a esta paleta que teima em cair nos tons de cinzento que nos escondem de nós próprios e das nossas potencialidades individuais e colectivas. Sou acima de tudo a favor da mudança!

Como povo, penso que devemos alcançar outro tipo de interacção social. Como artistas, um outro tipo de intervenção cultural, talvez mais direccionada a “destabilizar”, inteligente e subtilmente, as inúmeras zonas de conforto que nos caracterizam e demarcam individualmente. Como agentes culturais, sem dúvida uma maior envolvência no diálogo, que permita erguer pontes de confiança, concordância e conciliação – como quem estica os braços, talvez num abraço fraterno – entre indivíduos e grupos com pouca dissemelhança, que muitas vezes caminham em sentidos paralelos e de costas voltadas. Évora é fértil em pequenos triunfos, orgulhos e validações claustrofóbicas que enevoam o espírito e a alma criadora. Há que quebrar o ciclo!

Somos responsáveis pela nossa felicidade e devemos aceitar a mudança como forma de estar numa sociedade moderna. É uma questão de cidadania pura e simples! Devemos fomentar esta mudança de forma consciente e pró-activa numa alteração de postura e maior proximidade entre todos os agentes envolvidos na vida cultural desta cidade; artistas, responsáveis associativos, de colectividades e público. E esta é uma ideia assente em valores fundamentais de liberdade, comum a muita gente – que tem ocupado espaço e tempo nas conversas de café, nas discussões entre amigos, tertúlias circunscritas a espaços culturais – e como tal, merecedora de atenção.

Fascinam-me as bocas que ouço de gente que não se mexe senão para criticar de forma muito pouco construtiva, irritam-me algumas tomadas de posição sem nexo ou o propósito de ter uma continuidade positiva e fico triste ao perceber que a cidade de Évora é um tanto ou quanto estranha e diferente de outras cidades por essa Europa fora. Mas uma cidade é feita das pessoas que nela habitam, transitam e visitam e face ao que tenho conhecido nestes últimos tempos, ao que tenho vivido com novos amigos, com quem tenho privado e partilhado, face ao que tenho sentido em tanta gente anónima com opinião e ideias, vejo que há muita gente interessante e interessada numa cidade que aparenta ter perdido o interesse por si mesma, que aposta demais no entretenimento e menos na cultura, que se fecha continuamente nas suas ruelas já de si labirínticas, que foge às responsabilidades formais, onde amiúde se evita o óbvio e se contornam realidades que marcam a vida de muitos de nós que fazemos esta cidade pulsar. A Cidade vive muito para além do que é visível e palpável. Entretenimento faz falta a todos (ou à larga maioria), mas cultura também. Há espaço para tudo e todos.

A Cultura é estruturante e mostra-nos o futuro, e se há momentos em que temos de apostar no futuro, talvez mais pela Cultura que pela Economia, esse momento é AGORA!! E já se faz tarde…

Arte não se faz apenas em espaços nobres, por encomenda ou com objectivos bem estruturados. É importante perceber que há quem tenha a cultura como modo de vida e de subsistência (e não há mal nenhum nisso, excepto quando se gera algum tipo de habituação a roçar o clientelismo) e que essa dá vida a uma cidade que se move de muitos e variados eixos e interesses que vão para além da própria cultura. Importa perceber que esta gera empregos, promove benefícios e até pode, em certos casos, gerar lucro, mas que não deve ser orientada com outro objectivo que não o de educar e formar pessoas a sentir, reflectir e a criar. A arte nasce da necessidade de conceber e explorar os sentidos nas mais fundamentais características do espírito humano, ganha forma na harmonização de intenções, cresce na partilha de sentimentos e floresce na divulgação dos projectos. Há que mostrar o que de melhor se faz nesta cidade, dar a conhecer o que há de original e único, criar empatias e espaços de diálogo, juntando, de forma positiva e interessada, artistas, agentes culturais e público.

Somos anónimos até dar a cara por aquilo em que acreditamos e sinto que pode e deve haver mais e melhor nesta cidade. Neste momento é importante mostrar a todos, inclusive a nós próprios, que estamos vivos! Não interessa se somos mais à esquerda ou mais à direita. Somos pessoas, temos interesse e estamos interessados. Não vamos deixar morrer a Cultura em Évora! Temos ruas, temos praças, temos as pessoas que passam. Larguemos o conforto das nossas casas, das nossas mentes e os receios que as povoam e vamos para a rua partilhar emoções, sentimentos e opiniões.

A mudança está em cada um de nós. Cultura é Vida!

 

Pedro Pinto - músico

publicado por barak às 14:13
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