Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

Com Marcel Duchamp, em Évora

A arte é tudo, e vice-versa. Ou como, depois de uma exposição no Fórum Eugénio de Almeida, conseguimos transformar guarda-chuvas numa instalação artística...

Pedro Dias de Almeida (texto) e Marcos Borga (fotos)
17:41 Quarta feira, 20 de Abr de 2011
Última atualização há 37 minutos

"Surpreendi-me ao ver o nome 'Duchamp' na cidade de Évora!", escreveu alguém, hoje mesmo, 20 de abril, no livro de visitas da exposição Duchamp: A Arte de Negar a Arte patente até 12 de junho no Fórum Eugénio de Almeida, em Évora. Mais surpreendida ficaria esta visitante de Vila Nova de Milfontes se soubesse que, logo a seguir, ainda em junho, inaugura aqui uma exposição de Andy Warhol: Os Mistérios da Arte. Dois nomes centrais de duas revoluções artísticas - dada e pop - do século XX.

Quase um século depois, ainda é visto, por muitos, como bizarro e provocatório esse gesto de colocar um simples urinol branco numa galeria, chamar-lhe Fountain e, simplesmente, declarar "Isto é uma obra de arte". Uma (outra) revolução, em 1917. "Será arte tudo o que eu disser que é arte", formularia mesmo Duchamp. O urinol - não esse, original, mas outro, de 1967, peretencente à coleção privada da italiana Luisella Zignone, proprietária de todas as peças desta exposição - está agora em Évora a questionar ainda quem o vê. A invenção do ready made - "objetos de série promovidos pela escolha do artista à dignidade de objectos de arte" na exacta definição do surrealista André Breton - bastaria para colocar o nome de Duchamp num lugar central (um altar?) da arte contemporânea. Mas há mais: o seu trabalho com a linguagem, os jogos de palavras, o humor, a ironia, o absurdo, o gosto pelo acaso e pelo aleatório, as citações e referências a obras anteriores... Tudo isso - uma atitude que marcou os mais variados objectos artísticos (não só nas artes plásticas) do século XX e XXI - pode ver-se em Évora, numa exposição que, não sendo muito extensa, apresenta algumas obras centrais de Duchamp, revela desenhos menos conhecidos, e contextualiza bem a importância deste "maníaco do xadrez" (auto-definição).

Quando saímos do Fórum Eugénio Almeida, tudo pode transformar-se, instantaneamente, em arte. Magia. Os guarda chuvas abertos, e alinhados, à entrada da garagem Évorapneus, "chega ao Lidl e vira à esquerda", são uma instalação. Os pneus, em expositores, são arte maior. E ali, a própria Caravana VISÃO, com as suas mais de três toneladas, e a preparar-se para mais uns bons quilómetros - já andou mais de dois mil... - é uma grande obra de arte móvel.  

publicado por barak às 20:09
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