Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Mais de 27 mil fizeram viagem pelo corpo humano

O Champimóvel, um projecto da Fundação Champalimaud, usa tecnologia de ponta para ensinar os mais novos a conhecer várias doenças. E permite dispar tiros virtuais sobre os vírus, sem acertar nas células.
 

"Hoje são vocês os investigadores. Estão prontos? Vamos descolar." O relógio marca 18 horas. Dentro de um simulador, que faz lembrar a parte dianteira de um avião ou de uma nave espacial, um grupo de duas dezenas de adolescentes prepara-se para uma viagem interactiva, a três dimensões. À sua espera têm um passeio científico, não através do espaço mas pelo interior do corpo humano.

Até terça-feira, o Champimóvel, um enorme aparelho científico, está estacionado no recinto da Feira de São João, em Évora. Com um ano e dois meses de existência, este projecto de ciência educativa promovido pela Fundação Champalimaud já percorreu 7125 quilómetros por Portugal e Espanha, tendo sido visitado por mais de 27 mil pessoas, na sua maioria jovens com idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos.

"É esse o nosso público-alvo", confirma ao DN um dos colaboradores da Fundação Champalimaud envolvido no projecto, revelando que o 'Champi' tem sido uma "presença assídua" tanto em escolas como nos centros de Ciência Viva espalhados pelo País.

"Só nas épocas de exame ou fora dos períodos lectivos é que vimos a este tipo de certames, onde se atinge um público mais vasto. A curiosidade das pessoas é enorme. A partir daqui vão ser sessões contínuas e, no final da noite, haverá muita gente que não conseguiu entrar", acrescenta.

Lançado em Abril de 2008, o Champimóvel já passou por 174 escolas, localizadas em 44 concelhos. A bordo segue tecnologia de ponta destinada a despertar a curiosidade científica dos jovens.

Luzes apagadas, óculos tridimensionais colocados, funcionamento do joystick explicado, é altura de arrancar para uma viagem à descoberta do corpo humano.

"Podem interagir com os elementos da nossa missão", explica um boneco animado, chamado "Champi", que ao longo de 25 minutos conduz o grupo por uma aventura. Durante a viagem conquistam-se pontos a disparar tiros virtuais sobre vírus, sem, no entanto, acertar nas células sãs.

Por outro lado, os participantes descobrem o significado de palavras como ADN, células estaminais, terapia genética ou nanotecnologia.

Pelo meio, os novos "investigadores" têm ainda tempo de testemunhar as dificuldades no combate médico a doenças como a diabetes e a sida - "para esta doença, a única solução é a prevenção", resume o "Champi", depois de uma batalha perdida contra um vírus cujo desenho faz lembrar um pequeno diabo.

"Aprender desta forma, interagindo, é mais interessante e divertido", reconhece Luísa Policarpo, de 15 anos, depois de uma sessão no Champimóvel.

"Imaginava uma coisa mais parada, mais infantil. Afinal não é nada disso", acrescenta Joana Castro, de 14 anos. A irmã, Sofia, 16, garante ter aprendido "como se combatem as doenças", embora temáticas como o sistema nervoso e a sida não sejam propriamente novidade para esta aluna do secundário: "Demos isso em Ciências, no 9.º ano."

Concluída a viagem pelo corpo humano, professores e educadores são desafiados a "estimular os alunos a interiorizar, a aprofundar ou a alargar os conhecimentos sobre as ciências e sobre a investigação" através de um conjunto de actividades entre as quais se incluem jogos e trabalhos individuais ou em grupo complementados com pesquisas na Internet.

Outro desafio proposto para as salas de aula é a apresentação de "casos concretos de pessoas que se dedicaram à investigação e cujo trabalho teve impacto no avanço da ciência e na melhoria das condições de saúde". Ou seja, mais uma estratégia para "despertar a curiosidade científica" dos jovens.

publicado por barak às 14:10
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Aposta em carros eléctricos coloca País na linha da frente

O primeiro-ministro considerou hoje decisiva aposta nos carros eléctricos para o combate ao endividamento externo e melhoria ambiental, mas advertiu que a questão política é saber se Portugal se coloca na linha da frente ou se espera.

 

José Sócrates falava no Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, após 21 municípios do país terem subscrito um acordo para o lançamento da rede nacional de carregamento para veículos eléctricos.

 

Na presença de Sócrates e do vice-presidente da Renault Nissan, Carlos Tavares, assinaram este compromisso para o desenvolvimento de pontos de carregamento de baterias de veículos eléctricos as autarquias de Lisboa, Porto, Coimbra, Sintra, Vila Nova de Gaia, Loures, Cascais, Almada, Braga, Guimarães, Leiria, Setúbal, Viana do Castelo, Aveiro, Torres Vedras, Santarém, Faro, Évora, Beja, Castelo Branco e Guarda.

Diário Digital / Lusa
 

publicado por barak às 14:06
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Reguengos de Monsaraz: Loja do hipermercado Modelo assaltada

A loja Worten do hipermercado Modelo de Reguengos de Monsaraz foi assaltada hoje de madrugada, tendo os autores do furto levado vários equipamentos electrónicos e informático, como computadores, revelou a GNR. Fonte do Comando de Évora da GNR explicou à agência Lusa que o autor ou autores do assalto, que terá sido perpetrado “cerca das 04:00 ou 05:00” da madrugada, conseguiram aceder ao interior da loja depois de terem feito “um furo na parede de chapa” do edifício. “Os alarmes não dispararam e entraram para a loja. Carregaram o material que quiseram, nomeadamente computadores, máquinas fotográficas e de calcular e outros equipamentos electrónicos”, disse. O modo de actuação neste assalto “é o mesmo” que foi utilizado, na semana passada, num outro furto em Estremoz, na mesma cadeia de hipermercados, estando a decorrer a investigação da GNR.

publicado por barak às 14:03
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Retábulo único é atracção do Museu de Évora

Fechado em 2004 devido à degradação do edifício, o Museu de Évora reabriu ontem com uma exposição de 1700 obras de pintura, escultura, arquitectura e peças de arqueologia. De toda a colecção – na maioria pertença do arcebispo D. Frei Manuel do Cenáculo – o destaque é o retábulo de 13 quadros, com 36 metros quadrados, que representam a vida da Virgem. A obra de pintura flamenga de 1500, considerada uma das maiores do Mundo, ocupa uma sala do primeiro piso do antigo Paço Episcopal.



 

"Foram meses muitos difíceis, mas as portas do edifício estão de novo abertas ao público. Em Outubro, o museu irá acrescentar ao acervo têxteis, desenho e peças de ourivesaria", disse ao CM o director do Museu de Évora, Joaquim Oliveira Caetano.

publicado por barak às 13:58
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Évora: O museu em movimento

Entrevistar Joaquim Caetano, director do Museu de Évora, exige uma estranha ginástica. Ele parece estar parado, num dos corredores ainda em obras do museu, mas não está. Enquanto fala, produz um imperceptível movimento circular, como um astro fixo que no entanto se desloca no céu. Para não perder o contacto com os seus olhos, envidraçados nuns enormes óculos Rayban com armação de massa preta, é preciso ir rodopiando. Ele está em órbita.

Cruzando as galerias do piso térreo, que expõem peças de escultura e arquitectura do Renascimento e da Idade Média, chega-se às salas dos túmulos. O primeiro governador do Brasil, ou, ainda do reinado de Afonso IV, o morgado da Torre de Coelheiro, Fernando Gonçalves Cogominho, que Joaquim destapa como quem faz um número de ilusionismo, ou os bispos de Évora, esculpidos em pedra branca e sombria. Em destaque, a tumba de D. Afonso de Portugal, em cujo epitáfio, escrito pelas filhos, se lê: "Além da sua vocação, ainda foi obrigado, pelo rei, a ser bispo", e que mandou pintar o retábulo flamengo que está a acabar de ser montado no piso superior e é a glória do museu.

No corredor em frente, do outro lado do claustro que contorna as seis gárgulas e uma fonte em pedra do século XVI no centro do pátio, alinham-se as lápides romanas de Évora. Algumas verdadeiras. Outras forjadas no século XV, para inventar a Évora um grandioso passado romano. A época em que a corte se instala na cidade (tornando-a numa quase capital do país) coincide com a chegada do espírito renascentista, o que engendra uma curiosa megalomania. Há lápides romanas com frases apagadas, supostamente deterioradas pelos séculos, mas onde são notórias as picadas rasuradoras do cinzel impostor. Era preciso fingir que tudo era romano na cidade. Às ruínas que havia, acrescentavam-se outras, falsas. E nalguns vestígios enxertavam-se rematadas mentiras, como o caso das inscrições onde se fala de "Évora, colónia romana", ou da lápide que encima a fonte, quinhentista, do pátio, onde diz que aquele lavabo foi fundado por Sertório, imperador romano.

Sabe-se que até o eminente intelectual e humanista de Évora do século XVI André de Resende dedicou parte dos seus dias a falsificar com naturalidade lápides e outros documentos, de tal forma a prática era considerada legítima.

A seguir, no percurso do andar térreo, um passadiço transparente sobre uma escavação arqueológica.

É uma ferida aberta no corpo asséptico do museu. Expostos, tal como foram encontrados, vêem-se vários túmulos. Não foram para ali transportados, como as outras peças. Pertencem ao lugar. Todo o edifício do Paço Episcopal está construído sobre o fórum romano. E aqui, sobre esta ponte transparente, basta olhar para baixo para sentir a vertigem desse facto perturbador. A História moveu-se, mudou o mundo, fez rodar civilizações, mas não saiu do mesmo lugar.

Os túmulos estão ali, na necrópole próxima da basílica romana que existiu. Mas no mesmo lugar foi depois construída a catedral visigótica, e depois a mesquita. Os túmulos de romanos dispõem-se, lado a lado, a um determinado nível. Mas alguns centímetros acima são visíveis as sepulturas de cavaleiros da Ordem Militar de Évora, fundada no século XII, e centímetros abaixo destas existem vestígios de jazigos visigóticos.

Tudo isto aqui, dentro do museu. Ou melhor: o museu é que está aqui, dentro da necrópole.

Coleccionador compulsivo

Não se sabe porque terá o arcebispo iluminista Frei Manuel do Cenáculo adquirido este quadro do italiano Carlo Bonavia representando a erupção do Vesúvio. Foi pintado em 1750, precisamente o ano em que ele, Cenáculo, fez a viagem a Itália que marcaria a sua vida.

O quadro é uma paisagem aterradora de lava e labaredas, mas, minúsculos, no canto inferior esquerdo da tela, estão representados uns quantos turistas, um grupo que provavelmente fazia o "grand tour", a viagem que as elites dos séculos XVIII e XIX faziam aos lugares da cultura clássica. São figuras despropositadas e ridículas, conversando e gargalhando de forma vulgar, nas margens do abismo. Na sua sandice, uma mulher tropeçou e na obscenidade da queda deixa ver as cuecas.

O que terá, nesta obra de 1750, atraído Frei Manuel do Cenáculo? O que se sabe é que a partir desse mesmo ano, em que fez o seu próprio tour até Roma, começou a coleccionar quadros, livros, moedas, vestígios arqueológicos, plantas e animais embalsamados e toda a espécie de objectos de cultura. Tornou-se num intelectual importante do tempo do Marquês de Pombal. Foi preceptor do príncipe D. José, criou a Real Mesa Censória, que substituiu a Inquisição.

Com o advento da Reforma, o mercado religioso da arte tinha entrado em crise. Surgiram então, no século XVII, os coleccionadores privados, que compravam obras representando os temas que lhes agradavam. Os pintores adaptaram-se à nova realidade, especializando-se em paisagens, retratos, naturezas-mortas, batalhas, imagens de ruínas.

Quando foi nomeado, pelo Marquês de Pombal, bispo de Beja, Frei Manuel do Cenáculo era já um desses coleccionadores compulsivos. Não só tinha o vício de comprar tudo o que via (anos depois, o seu sucessor na diocese de Beja ainda se queixava que lhe chegavam, todos os dias, pelo correio, pacotes com quadros a que não sabia o que fazer) mas também achava que as colecções tinham um papel educativo fundamental. Obras de arte e livros deviam estar juntos, pensava Cenáculo, como instrumento de formação - principalmente do clero, que ele considerava ignorante.

Por isso fundou, em 1791, em Beja, o Museu Sesinando-Cenáculo-Pacense, com as obras da sua colecção, que depois transferiu para Évora, ao ser para aí nomeado como arcebispo. O projecto era a criação de uma biblioteca-museu, que, devido a contratempos vários, de que as Invasões Francesas não terão sido o menor, se viu impedido de concretizar. Mas fundou a biblioteca, em 1804, antes de morrer, em 1814. A colecção de arte, arqueologia, numismática, naturália e artificiália ficou dispersa entre algumas salas da biblioteca e outras do Paço.

O museu só seria criado em 1915, depois da implantação da República, que expropriou o Paço Episcopal. Em 1921, o Palácio Amaral foi comprado para instalar as colecções de Cenáculo e o Museu de Évora. Mas foi destruído em 1926 por um terramoto, e o museu voltou, em 1929, ao edifício do Paço Episcopal, onde hoje será de novo inaugurado. As primeiras obras de adaptação do espaço ocorreram no tempo do director Mário Tavares Chicó (1943 a 1966). As segundas, em que foi aberta parte da cave para expor as peças de arqueologia, entre 1967 e 1986.

Desde então, por falta de cuidados de preservação, o edifício e as obras foram-se degradando. Até que, em 2004, o museu fechou, para obras. Que só começariam dois anos mais tarde, sob a direcção do arquitecto Raul Hestnes Ferreira. Estão terminadas e o museu abre hoje ao público.

Dever público

Primeiro andar. É aqui que está a nata da colecção de Cenáculo: a pintura. Muitos destes quadros estavam tão degradados que nem se sabia que existiam, ou a sua importância, ou irrelevância. Quando começaram os restauros, Joaquim Caetano viu muitos quadros nascer. Alguns, onde havia grande expectativa, foram uma desilusão. Mas outros brotaram do nada, em eloquente maravilha. De todo o acervo, são essas as obras preferidas de Joaquim. Como por exemplo uma imagem de D. Sebastião, em que, das formas baças, esfumadas, surgiu um dramático jogo de luzes e um manto branco em misterioso contraste com as sombras do corpo do santo.

Joaquim Caetano é formado em História da Pintura. Veio para Évora há dez anos, com a família, para fazer renascer o museu - "Vim por esta colecção. Encarei isto quase como um dever público", diz ao P2. Desde então, está em luta permanente. Dificuldades financeiras e burocráticas transformaram a sua missão numa aventura. Ele chama-lhe "desafio da normalidade". Ou "quando não se tem cão, caça-se com gato". Organizou intercâmbios e permutas, levou peças de Évora a outros museus (por exemplo Roma e Mérida), em troca dos serviços dos especialistas desses museus. Cada passo foi uma conquista. Isso percebe-se pela forma como agora percorre os corredores do museu - como se tudo fosse seu. E é.

Foi ele que escolheu, das cerca de 20 mil peças da colecção, as 1700 que ficariam expostas. O que é uma responsabilidade ainda maior do que parece, porque, devido aos limites orçamentais, as obras que ficam em armazém não foram restauradas. Isso pode significar a sua mais rápida, talvez irreversível, deterioração.

Um dia, espera Joaquim, o museu estender-se-á até ao edifício, contíguo, da biblioteca municipal, realizando o sonho de Frei Cenáculo. Isso permitirá que mais obras saiam da escuridão.

Para já, o director quis que as espécies da sua arca de Noé apresentassem, em conjunto, alguma coerência. Vai mostrando as secções de pintura italiana e espanhola, portuguesa e flamenga, a sala de mestres luso-flamengos, obras dos séculos XV e XVI, as salas dos séculos XVII e XVIII. Destaca os seus preferidos, uma obra do espanhol Luis de Morales, chamada O Divino, concluída em 1565 e que estava no Convento de São Domingos em Évora. Um retrato de Catarina de Bragança aos 12 anos. Um quadro setecentista de Baltazar Gomes Figueira, o pai de Josefa de Óbidos. Outro de Domingos António de Sequeira. Do século XVIII, Paisagem de Inverno, de Hendrick Avercamp. André Gonçalves, Pedro Alexandrino, Joaquim Manuel da Rocha - o Morgado de Setúbal -, que foi amigo pessoal de Frei Cenáculo.

"É um dos poucos museus do país onde se pode ver toda a história da pintura portuguesa antiga", explica Joaquim Caetano. "Além dos museus de Arte Antiga e Machado de Castro, em nenhum outro existe uma colecção tão completa, abrangendo todos os períodos."

Essa é uma das razões para visitar o museu de Évora. A outra é o retábulo flamengo.

Retábulo impressionante

Tem uma sala só para ele, que reproduz a aparência e as condições da capela-mor da catedral, para onde foi concebido: o chão é rebaixado, as paredes são em madeira de carvalho, o tecto abre-se numa clarabóia que imita a torre de lanterna da capela. São 36 metros quadrados de pintura, divididos em 13 quadros principais, representando a vida da Virgem. Lê-se de baixo para cima, em S, a partir do primeiro quadro da esquerda, como uma história em banda desenhada. Começa com a infância da Virgem (o Encontro na Porta Dourada, o Nascimento, a Apresentação no Templo e o Casamento), continua com o Ciclo da Natividade de Jesus (Anunciação, Nascimento, Circuncisão, Adoração dos Reis), termina com a série sobre a Infância de Cristo (Apresentação de Jesus no Templo, Fuga do Egipto, Jesus entre os Doutores e Morte da Virgem).

É um dos maiores retábulos de pintura flamenga que se conhecem no mundo, e deve ter custado uma fortuna. Foi encomendado para a Catedral por volta de 1500, pelo então bispo da cidade, D. Afonso de Portugal.

Não se conhece a autoria exacta da obra, mas, pelas suas características, dimensão e heterogeneidade, presume-se que foi realizada por artistas de Bruges das escolas de Gerard David e Hugo van der Goes. Terá sido pintado num grande “atelier”, pensa Joaquim Caetano, uma vez que só aí seria rentável a produção de um políptico desta dimensão. Era tal o trabalho de pintura em camadas sobre placas de carvalho do Báltico, que um centímetro quadrado destes quadros saía ao preço da mesma porção de prata.

Naquela época, Hugo van der Goes, que sempre teve problemas mentais, teve uma crise mística, e entrou para um convento. O seu atelier foi desmembrado e os artistas que lá trabalhavam espalharam-se pelas empresas de outros mestres, que muitas vezes constituíam um atelier gigante, só para a confecção de uma grande encomenda. Pode ter acontecido isso com o retábulo de D. Afonso.

A sua qualidade técnica, que está a ser estudada pela maior sumidade mundial na área, a conservadora do Metropolitan Museum, Maryan Aisworth, é primorosa. Não obstante a obra não apresentar a assinatura de nenhum mestre pintor. Não era fácil ser mestre, na Flandres dos séculos XV e XVI. O sistema corporativo era rígido e elitista. Para se ser nomeado mestre era preciso ter dinheiro, ou uma cunha tão grande como casar com a filha de um mestre.

No entanto, os historiadores de arte estão hoje a descobrir a importância dos artistas que não chegaram a mestres, os ‘compagnons’. "Andavam de ‘atelier’ em ‘atelier’ e foram fundamentais na transmissão de técnicas", explica Joaquim Caetano. Alguns terão atingido qualidade igual ou superior à dos protagonistas oficiais da História da Pintura. Os autores do retábulo de Évora estariam nessa situação, a julgar pelo esplendor da obra. D. Afonso de Portugal não olhou a meios. Encomendou o melhor que havia. Mas com que objectivo?

Afonso, um homem rico e culto que tratava os rei por tu, era filho natural (legítimo, dizia ele) do Marquês de Valença, o que o fazia herdeiro da Casa de Bragança. Para que não viesse a reivindicar a herança desta casa nobre, quando ela foi decapitada por D. João II, este obrigou-o a entrar na vida religiosa. Nomeou-o bispo, com a promessa, embora, de que o faria cardeal. Mas a promoção tardava, entre pretextos de que o sangue de D. Afonso seria bastardo. Para ultrapassar essa condição e se promover, o bispo de Évora consumiu-se em feitos grandiloquentes. Escreveu livros, envolveu-se em debates públicos, adquiriu obras para a diocese, principalmente quando se aproximava a eleição para o cardinalato. O retábulo da Virgem foi portanto um acto de propaganda eleitoral.

Claridade e silêncio

Está quase montado. Cinco trabalhadores, pendurados num andaime móvel, apertam com força os últimos parafusos das molduras em carvalho americano numa réplica da capela onde D. Afonso de Portugal o imaginou, e no mesmo lugar onde Frei Manuel do Cenáculo o colocou e onde Joaquim Oliveira Caetano o quis colocar de novo.

O director observa a colocação das molduras e afasta-se sem avisar, como é seu hábito. Ouvem-se apenas os trabalhadores, arrastando o andaime, recitando indicações técnicas. Depois também eles saem e o retábulo cresce subitamente em claridade, ímpeto e silêncio. Parece ganhar vida.

As personagens voltam as cabeças, estendem as mãos, sorriem, falam, na mesma ilusão que lança todo o museu em movimento. Não. As coisas estão paradas. Nós é que nos movemos.

in PUBLICO.pt

publicado por barak às 14:38
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Sábado, 27 de Junho de 2009

Museu reabre segunda-feira, após cinco anos de portas fechadas para obras

Évora, 27 Jun (Lusa) - Após cinco anos de portas fechadas para obras de remodelação, iniciadas apenas em 2007, o Museu de Évora reabre segunda-feira, ainda com algumas salas fechadas mas já com as colecções de pintura e de escultura renovadas. "Vamos abrir no Dia da Cidade (feriado municipal), um dia marcante na história do museu, e espero que seja para não fechar mais, em muitos e muitos anos. Estamos fartos de obras, apesar de terem sido importantes e necessárias", congratulou-se hoje à agência Lusa o director do Museu de Évora, Joaquim Oliveira Caetano. A Secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos, preside à cerimónia, pelas 18.00.
publicado por barak às 20:58
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Évora: Museu vai ter oficina de conservação e restauro em parceria com universidade local

Évora, 27 Jun (Lusa) - Uma oficina de conservação e restauro, resultado de uma parceria com a Universidade de Évora, é uma das novas valências do Museu de Évora, que reabre segunda-feira após obras de valorização e remodelação.

"Para trabalhar para os públicos de amanhã, é preciso conservar o património", salientou hoje à agência Lusa o director do museu, Joaquim Oliveira Caetano.

Enquanto esteve encerrado, apenas com um núcleo expositivo provisório na Igreja de Santa Clara, o Museu de Évora deu prioridade ao restauro e protecção de algumas das mais importantes peças do acervo, por técnicos de oficinas especializadas.

"Foram feitos restauros profundos em mais de um milhar de peças", salientou o director, garantindo que, com a reabertura do museu, esse trabalho "não vai parar" e vai mesmo ser criada uma oficina do próprio museu.

"Pela primeira vez, vamos ter uma oficina residente, que era um anseio de há muito tempo", revelou, salientando a "ligação estratégica" com o departamento de Química da Universidade de Évora.

Segundo o director, a academia alentejana já instalou "dois laboratórios no Palácio do Vimioso" e, "nas próximas semanas", o Museu de Évora "instalará o seu laboratório".

A oficina, que irá acolher bolseiros e estagiários ligados a essa área, vai permitir efectuar o restauro de peças sem que estas tenham de sair do museu.

"Certamente, vamos também continuar a trabalhar com oficinas de restauradores especializados", ressalvou Joaquim Caetano, explicando que esses projectos costumam envolver "peças de alguma importância", mas que o novo laboratório vai permitir restaurar "o grosso das outras obras".

"Esperamos, dentro de pouco tempo, ter todas as peças do museu em condições óptimas de conservação", frisou.

Uma série de exposições temporárias já estão programadas, além da inaugural, que apresenta trabalhos de Luís Afonso, "um dos grandes cartoonistas portugueses e um dos vultos da cultura actual do Alentejo".

No mês de Outubro, altura em que todo o museu já deverá estar aberto ao público, avançou, deverá ser inaugurada uma "exposição importantíssima e de nível internacional" baseada numa "colecção privada de armas brancas orientais".

"A colecção nunca foi mostrada e tem autênticas peças de joalharia, de importância histórica e artística", vincou, revelando que vão ser mostradas "armas dos povos com os quais os portugueses contactaram durante as Descobertas".

Retratos romanos, em parceria com o Museu Nacional de Arte Romana, de Mérida (Espanha), obras de pintores luso-flamengos e desenhos da autoria do artista plástico António Charrua, que viveu em Évora e faleceu em 2008, são outras das exposições programadas.

RRL.

Lusa/Fim

publicado por barak às 20:56
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